Estou a escrever em nome do GAIA, em resposta ao artigo publicado
no dia 2 de Dezembro no Público escrito por Helena Matos intitulado,
"Há dias que não se entendem".
A autora começa por deixar
entender que os voluntários do GAIA (Grupo de Acção e Intervenção
Ambiental), não tem mais nada que fazer (não trabalham?) e por isso
envolvem-se em conceitos disparatados, como tentar fazer com que
sejamos mais ecológicos e éticos para com o planeta e outros seres
humanos que além de terem o horário preenchido e mais preenchido que o
nosso aqui no primeiro mundo ainda nem recebem o suficiente para se
alimentar.
O estereótipo de que as pessoas que se envolvem em associações não
trabalham é frequente, mas convido já a Helena Matos a vir conhecer os
membros do GAIA para ver o quanto eles trabalham. E mesmo que não
trabalhassem, se estivessem a fazer voluntariado isso não seria de
louvar? Ou quem está desempregado deve ficar em casa à espera de
trabalho sem se mexer para outras coisas porque aquilo que pode fazer
não tem valor económico neste sistema?
Mas vamos reflectir bem sobre o consumo, será que em Portugal a
crise faz com que certos tipos de consumo efémero desapareça? É
engraçado verificar que o país menos consumista em termos de vestuário
é a Finlândia e o mais consumista é a Grécia, e Portugal segue muito
próximo. Será que na Finlândia o tempo é tão quente que eles não
precisam de roupa? Não sei, acho que é o contrário. Mas espera aí, não
são as condições sociais muito melhores na Finlândia que na Grécia?
Será então que aqui somos exageradamente consumistas? E telemóveis da
3ª geração? Carros com sistema GPS? Televisões de alta definição com
SPORT-TV? Aqui em Portugal não se consome nada disso porque o País está
em crise. Aqui em Portugal ninguém se endivida com superficialidades...
Temos países em guerra como o Congo, porque aqui no primeiro mundo
precisamos da matéria prima para construir telemóveis e sistemas
wireless.
Invade-se
o Iraque e matamos milhares, ou milhões de pessoas, porque aqui
precisamos de gasolina para irmos de carro às compras. Mas isso não é
importante pois não? O importante é pedirmos empréstimos para comprar o
novo Audi e manter a economia capitalista a rolar, e assim, os
accionistas das grandes empresas podem acumular grandes quantidades de
capital. Será que no jornal público não têm acesso a dados concretos
sobre o lucro acumulado pelos gerentes de grandes empresas e
instituições bancárias? Tendo esses dados não será melhor começarmos a
reflectir sobre como está a ser distribuida a riqueza?
O GAIA não pretende com esta reflexão proibir alguém de ter acesso
aos luxos do primeiro mundo, só estamos a propor uma reflexão com o
intuito de criar uma maior consciencialização e tomada de posição. Mas
para algumas pessoas, e para a Helena Matos, e como deixa entender no
seu artigo, tentar propor uma reflexão ou criação alternativas é o
mesmo que impor certos dogmas religiosos. Realmente há dias que não se
entendem, mas afirmo, há artigos que também não...
Convido a Helena Matos a calcular a sua pegada ecológica, http://www.esb.ucp.pt/gea/myfiles/pegada/pegada.htm, e assim perceber
qual
o impacto do seu consumo no planeta e reflectir sobre o do conjunto dos
cidadãos portugueses (penso se todos no mundo fossem como o comum
cidadão Português precisaríamos de ter 2 terras e meia). Infelizmente,
à custa da abundância de uns, a maioria não tem acesso a quase nada,
nem a água potável. Mas realmente é ridículo pensarmos em reduzir o
consumo...
Depois Helena de Matos ainda faz um salto temporal e confunde Verde
Eufémia com GAIA (Acho essencial pesquisarmos bem as coisas antes de
fazermos
certas
afirmações). E depois atribui ao GAIA a organização da Oficina Activa.
Se bem que o assunto nos interessa a oficina activa é organizada por
várias pessoas incluindo pessoas do GAIA, mas não é o GAIA que
organiza. E ainda acaba o artigo a diabolizar a acção directa. Acção
directa é um forma de reivindicação, que deve ser um tomada de posição
frequente em sociedades democráticas. Figuras históricas como Gandhi,
Rosa Parks, Martin Luther King
serviram-se da acção directa para reivindicar direitos e liberdades civis.
com os melhores cumprimentos e desejos por um mundo melhor,
--
pedro gonçalves
Artigo de Helena Matos
Há dias que não se entendem
Helena Matos
2 de Dezembro de 2008
Publico
Mais uma vez tivemos a comemoração do Dia sem Compras. Devidamente
convocado para um sábado por umas almas certamente isentas de
constragimentos horários e orçamentais, pois a maioria dos portugueses
não só trabalha durante a semana, como está a confrontar-se com
dificuldades que os levam a reduzir as compras, que apelaram "a outra
forma de vida" onde se inclui o não fazer compras: "devemos reduzir o
consumo ao essencial, receber o que o planeta tem para nos dar sem o
destruir" - dizia o comunicado do GAIA - Grupo de Acção e Intervençao,
promotor da efeméride. Contudo, o mais espantoso não é o teor destas
propostas, mas sim o reflexo pavloviano que estes dislates geram nas
redacções. Imediatamente, um repórter parte de microfone em punho para
inquirir não os autores destas propostas, mas sim quem ousa
contrariá-las. O tom adoptado nas perguntas é mais ou menos o mesmo com
que no passado, no mundo cristão, se confrontavam aqueles que comiam
carne na Semana Santa. Porém, e aproveitando este apelo do GAIA, teria
sido interessante perceber exactamente o que entende aquela organização
- que se tornou conhecida dos portugueses aquando da destruição de um
campo de milho transgénico no Algarve - não apenas por um mundo sem
compras mas sim por "acção directa"? No próximo fim-de-semana, o GAIA
leva a cabo no Porto, uma "oficina activa" de "acção directa". Se um dia
sem compras é difícil de imaginar, já as consequências daquilo a que se
tem chamado "acção directa" são bem fáceis de entrever. É mesmo de acção
directa de que o GAIA está a falar? E já agora, directa sobre quem?
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