O eco-capitalismo

Uma viagem de avião inicia-se com a submissão a um repertório de indignidades: o passageiro é semi-despido, descalçado, apalpado.

Quem se sujeita a isto também aceitará com docilidade ser pesado. É essa a conjectura da ‘low-cost' Ryanair, que vê uma oportunidade para introduzir uma estrutura de preços mais lucrativa, discriminando a tarifa em função do índice de massa corporal dos passageiros e justificando-se com argumentos ambientais. Num inquérito promovido pela companhia, mais de 40% dos inquiridos mostraram-se favoráveis à ideia.

Este e outros exemplos mostram a forma como o capitalismo está a adaptar-se ao discurso ecologista. O resultado é uma mistura promíscua de ideologias antagónicas: o eco-capitalismo. Se a esquerda esperava que a crise financeira de 2008 fosse o 1989 do capitalismo, pode desiludir-se: a crise financeira não será a ruptura que anuncia novas utopias. Ainda assim, a porta entreaberta do eco-capitalismo permite antever um mundo perturbante em formação. Paradoxalmente, o choque civilizacional decorrente da incorporação de elementos ideológicos ecologistas pode ser maior do que a adaptação do capitalismo ao marxismo. Isto porque o marxismo envolve uma utopia libertária, onde o proletariado assume o papel de redentor da humanidade, enquanto que no cerne do ecologismo está um culto pagão da natureza, que encerra uma visão distópica e anti-humana do mundo, e que se traduz na negação do carácter excepcional do homem - um elemento distintivo da doutrina cristã, basilar na civilização ocidental.

Os novos indesejáveis do eco-capitalismo são os grupos sociais "anti-ecológicos", como os obesos, ou os "suburbanos" - note-se a simbologia da polis como lugar de cidadania clássica, em contraste com a residência periférica do "suburbanos". São grupos sociais a quem o Estado e as empresas impõem uma semi-exclusão definida pela adopção de penalizações monetárias e outras restrições comportamentais. Não sendo verdadeiros excluídos, o seu descontentamento não é mobilizável para causas anti-capitalistas: tal como os suburbanos pagarão mansamente as taxas de entrada na cidade, a pretexto da "congestão", também os obesos acabarão por aceitar a sujeição a novas formas de indignidade lucrativa. Gradualmente, as condutas ecologicamente indesejáveis serão alargadas. Recentemente, a deputada britânica do Parlamento Europeu Caroline Lucas comparou o acto de viajar de avião para Espanha a "esfaquear pessoas na rua", insinuando o seu desejo de impor aos europeus uma das características da vida na URSS: o condicionamento da liberdade de movimento. Mas a forma última de regulação eco-capitalista é a legislação penalizadora das emissões de CO2, que estende a noção de conduta anti-ecológica à totalidade da actividade humana: acabaremos todos por ser ‘Untermensch' no admirável mundo eco-capitalista.

Fernando Gabriel, Investigador universitário

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