O paradoxo da concorrência:
a liberdade de empreendimento em regime de concorrência gera uma disciplina severa, em claro contraste com a indisciplina em regra gerada pela tutela estatal.
Este paradoxo tem profundas consequências políticas porque é contra-intuitivo. Nas culturas políticas sem hábitos de liberdade - em regra culturas políticas continentais, por contraste com marítimas - a ideia comum é precisamente a contrária. As pessoas tendem a pensar que a liberdade e a concorrência geram indisciplina ou, em alternativa, a opressão do forte pelo fraco. Daqui surgem duas tendências rivais que se alimentam mutuamente no combate à livre concorrência.
Convergência entre rivais.
Por um lado temos os chamados defensores da ordem. Tendem a pedir mais intervenção do Estado ou de autoridades centrais para por cobro ao que vêem como excessiva variedade e ausência de simetria. Por outro lado, temos os chamados defensores da liberdade. Vêem a disciplina impessoal da concorrência como opressora da "livre expressão" de cada um. E acabam também eles a pedir mais intervenção do Estado para "controlar as forças cegas da concorrência". Estas infelizes dissonâncias cognitivas tendem em regra para o mesmo resultado: as tendências rivais, numa cultura política continental, convergem no comum reforço do poder e alcance do Estado.
Dois tipos de disciplina.
Vimos no sábado passado (http://www.ionline.pt/conteudo/36196-liberdade-e-disciplina) um dos resultados do crescimento do Estado: a indisciplina orçamental, a subida constante da despesa e da dívida públicas, o aumento paulatino dos impostos. Mas há uma outra consequência de alcance muito mais profundo: a geração de uma cultura pública de indisciplina e de compadrio. Vale a pena observar como esta cultura laxista emerge do crescimento do Estado.
É importante começar por observar que há dois tipos de disciplina. Uma consiste na obediência a regras gerais de conduta, outra consiste na obediência a ordens particulares de comando.
Regras gerais.
As regras gerais de conduta tendem a ser abstractas, independentes de propósitos particulares e iguais para todos os que se encontram em situações semelhantes. Estas regras emergem tipicamente em situações de troca livre e concorrencial, sem terem de ser delineadas centralmente por ninguém.
Nestas situações, os agentes que visam trocar bens ou serviços têm interesse próprio em sinalizar que o seu comportamento segue regras de conduta que mereçam a confiança dos seus clientes potenciais. Os sinais de credibilidade, respeitabilidade, seriedade são necessários a agentes que visam trocar os seus bens ou serviços e não dispõem de meios para coagir outros a comprá-los. Por outras palavras, a interacção em ambiente concorrencial tende a gerar nos actores a adesão a normas gerais de boa conduta, sem que estas tenham de ser inventadas ou emitidas por algum centro singular. Aqueles actores terão ainda interesse próprio em apoiar a actuação de um árbitro imparcial que possa punir as infracções a essas regras gerais de boa conduta, que são do interesse geral.
Comandos específicos.
As ordens particulares de comando são de tipo diferente. Visam atingir objectivos particulares, que são julgados bons ou desejáveis por alguma entidade, singular ou colectiva. Esses objectivos requerem acções específicas, que por sua vez geram funções específicas e lugares determinados. As ordens particulares serão por isso diferentes consoante as acções, as funções e os lugares específicos que as pessoas ocupam. São ordens particulares características de organizações, nas quais existe uma unidade de propósito, e nas quais as pessoas desempenham funções específicas diferentes com vista a alcançar o propósito definido.
As ordens de comando são inteiramente necessárias para o funcionamento de organizações ou instituições que visam propósitos particulares. Numa sociedade livre, essas organizações e instituições fazem parte do sector voluntário, no qual as pessoas se associam ou desassociam consoante contratos voluntários.
Mas as ordens de comando não são adequadas à sociedade como um todo, basicamente porque numa sociedade complexa existe uma variedade de propósitos: pessoas, famílias, instituições, empresas, etc., adoptam propósitos variados que não podem ser facilmente hierarquizados numa única escala susceptível de dotar a sociedade de uma unidade de propósitos.
Captura do Estado.
Quando não se distingue entre regras gerais e comandos específicos, o resultado é a ilusão de que, para haver ordem, tem de haver comandos específicos. Mas como os comandos específicos estão associados a propósitos particulares, a tentativa de organizar uma ordem social com base em comandos específicos inevitavelmente gera um conflito com vista a unificar os propósitos.
Dado que os propósitos não são uniformizáveis, isso leva à tentativa de impor os propósitos de uns grupos sobre outros. Daqui nasce a tentativa de capturar o poder de Estado com vista a promover a partir dele os propósitos específicos de um grupo, em detrimento de outros.
Cultura política.
Isto tem profundas consequências na cultura política. Julga-se que o Estado serve naturalmente para promover propósitos específicos - em vez de ser sobretudo árbitro de regras gerais. A captura do Estado - em vez da expansão da liberdade de acção e consequente limitação do seu poder - torna- -se o objectivo de cada grupo. E a alternância entre grupos distintos que igualmente visam capturar o Estado resulta na contínua expansão deste.
Isto conduz a uma cultura política que ignora o conceito de regras gerais, apenas conhecendo o conceito de ganho particular. No final desapareceu o conceito de disciplina enquanto obediência a regras gerais.
Mercado ou renda?
É difícil exagerar a importância e o alcance do contraste entre uma cultura política de regras gerais e uma cultura política de comandos específicos.
Numa cultura política de regras gerais, as pessoas procuram melhorar a sua condição através de iniciativas que possam ser úteis a terceiros. Sabem que não têm outra maneira de perseguir os seus próprios propósitos senão conquistar a preferência de terceiros. É o que se chama trabalhar para o mercado.
Numa cultura política de comandos específicos, as pessoas procuram melhorar a sua condição através da conquista ou captura de lugares com poder de decisão sobre outros, em regra, lugares com poder de alocação de dinheiro dos contribuintes. Esses lugares servem então para promover os seus propósitos particulares - aos quais em regra se chama "propósitos nacionais", "interesses estratégicos", "interesse público". É o que se chama trabalhar para criar ou proteger rendas de situação.
Produtividade.
Trabalhando para o mercado, as culturas políticas de regras gerais geram uma poderosa pressão para o aumento da produtividade e da inovação. Sem outros meios de promover os seus bens ou serviços para além da persuasão, as pessoas tentam melhorar o que têm para oferecer - e tentam fazê-lo a custos mais baixos. Trabalham com um orçamento limitado que não pode ser artificialmente expandido - sob pena de os conduzir à falência. Também não podem reclamar mais orçamento, porque numa cultura de regras gerais ninguém é compelido a dar-lhes mais orçamento.
Numa cultura de comandos específicos, a disciplina impessoal do mercado é substituída pela indisciplina das decisões políticas ou administrativas. Os grupos de pressão canalizam os seus esforços - não para inovar e baixar os custos - mas para persuadir os decisores da "importância nacional" dos seus propósitos particulares. Não existe uma disciplina impessoal que limite os orçamentos. Tudo o que é "importante" tem de ser financiado. Daqui decorre o buraco das contas públicas e a quebra de produtividade dos sectores protegidos pelas decisões políticas ou administrativas.
Duas liberdades.
Uma distinção ainda mais importante diz respeito aos dois conceitos de liberdade que emergem naquelas duas culturas políticas.
Numa cultura de comandos específicos, a liberdade é entendida como possibilidade de escapar aos comandos específicos. Isto só pode ser atingido de duas maneiras: ou sendo o próprio a ditar os comandos, ou, não sendo, tentando escapar aos comandos dos outros, sem que ninguém dê por isso. É uma cultura em que não existe confiança. Nunca se sabe ao certo o que os outros vão fazer: ou vão tentar mandar em nós, ou vão tentar não cumprir qualquer regra.
Numa cultura de regras gerais, a liberdade é naturalmente associada a regras gerais de boa conduta. As pessoas sabem que as regras gerais as protegem de ter de obedecer a comandos específicos. Se não houvesse regras de trânsito, ficaríamos à mercê do capricho dos polícias, isto é, dos seus comandos específicos. Havendo regras gerais de trânsito, o papel dos polícias é fazê-las cumprir - o que é obviamente do interesse de todos, porque lhes permite conduzir para onde quiserem, sem interferência de comandos específicos.
Segredo da liberdade.
Isto explica porque nos países que são livres há mais tempo - como as culturas marítimas de língua inglesa - existem simultaneamente hábitos ancestrais de obediência a regras gerais, por um lado, e, por outro, uma surpreendente liberdade de opinião, de iniciativa e de modos de vida.
Este é o segredo da liberdade duradoura: apoia-se na disciplina de regras gerais de boa conduta, que permitem a cada um perseguir os seus próprios propósitos. Sem essa disciplina, a liberdade degenera em licença de grupos particulares que tentam impor aos outros os seus comandos específicos, como única forma que conhecem de perseguir os seus próprios propósitos.
Comentários
O tipo de disciplina gerado em concorrencia livre,ou das fraldas
"Em postas finas? São 35 euros. Senha 63!" Nove horas seguidas
Marisa (*) abre e fecha a boca como quem está a dizer qualquer coisa. Ali, na balança, não é suposto fazerem-lhe perguntas, mas fazem. "Os alhos estão ali junto às cebolas", é o que os lábios dela pronunciam. Mas o que se ouve é: "..." Perdeu a voz por trabalhar demasiadas horas no bacalhau. "Senha 62!", gritava, em frente ao cartaz que classifica o bacalhau e o Natal de cada um dos clientes que enchem completamente o hipermercado. "Miúdo. Corrente. Crescido. Graúdo. Especial." Avançava para a serra eléctrica com o peixe seco na mão. "Em postas finas? São 35 euros. Senha 63!" Nove horas seguidas. No turno seguinte estava, afónica, a pesar os vegetais.
"Ontem deixei cair uma palete no pé", queixa-se Ana, mais de 40 anos, óculos grossos, farda e boné brancos, enquanto arruma os pacotes de frutos secos. "Mal consigo andar. Mas agora não posso fazer folgas. Só daqui a duas semanas."
Filomena está há 10 horas seguidas na caixa. "Alô? Boa tarde? Não, não é para dizer boa tarde. Não há razão para dizer boa tarde. É que estas beterrabas não têm cadastro. Passo-as e não regista. Podes vir aqui?"
Os produtos têm um código de barras, e o trabalho de Filomena é passá-los num scanner e metê-los num saco. Cada vez que o faz, a leitura óptica processa instantaneamente a informação de preço e características e envia-a para a área de gestão de stocks. Ao mesmo tempo, o sistema está a detectar automaticamente as variações no comportamento dos clientes, os seus hábitos de consumo, concretos e potenciais.
Filomena está a recolher toda esta informação, sem saber. "Se houver greve, eu não faço. Já me avisaram que as chefias vão ter de comunicar à gerência quem foram as trabalhadoras que faltaram. E depois, quando for para renovar o contrato..."
O Sindicato dos Trabalhadores do Comércio, Escritórios e Serviços de Portugal (CESP) não sabe ao certo quantos trabalhadores no sector da grande distribuição estão numa situação de precariedade. Mas o número situa-se entre os 30 e os 40 por cento dos quase 90 mil empregados das empresas da Associação Portuguesa de Empresas de Distribuição (APED). Têm contratos a termo, a seis meses, que são ou não renovados consoante os gerentes estão satisfeitos. E eles são difíceis de satisfazer, a julgar pelo elevado índice de "rotatividade" no sector. Num hipermercado, onde podem trabalhar de 200 a 400 pessoas, quase todos os dias surgem operadores novos nas caixas.
Um "saco de horas"
Os trabalhadores da APED têm horários flexíveis. O sistema, acordado entre as empresas e os sindicatos, permite trabalhar 40 horas semanais, em jornadas de 8 horas, ou mais. Isto em teoria. Na prática, diz Elisabete Santos, da direcção do CESP, os operadores já fazem 50 horas semanais, que deveriam ser compensadas cada 8 semanas. Mas essas folgas extra raramente são gozadas. Passam para um "saco de horas" eternamente adiado. Segundo o CESP, a alteração que a APED quer agora introduzir não será mais do que a legalização dessa situação de facto.
Em períodos "especiais", como o Natal, os trabalhadores chegam a estar 14 horas seguidas ao serviço. Almoçam e jantam o que trazem na marmita, na sala dos funcionários, e voltam ao trabalho. Quando estão em locais de função ininterrupta, como na caixa, têm direito, teoricamente, a 10 minutos para irem à casa de banho. Na prática nem sempre conseguem substituição e, sim, é verdade que há muitos casos em que urinam ali mesmo. Numa reunião com as chefias, que alguém relatou a Elisabete Santos, chegou a ser sugerido que as operadoras usassem fraldas. Quando vão à casa de banho, não é raro haver uma câmara à entrada, para controlar o tempo que passam lá. Mas a pressão não acaba aí. Em vários hipermercados, há câmaras colocadas nas áreas de pessoal, e as trabalhadoras têm as malas revistadas à entrada e à saída. Em alguns, como os do grupo Auchan, há um semáforo aleatório na porta. Verde, pode seguir. Vermelho vai à revista. Noutros, como no Pingo Doce, existe o chamado "Stop aos cacifos", em que os compartimentos privados dos trabalhadores são abertos e verificados.
Horário "de bolso"
Mas, além da extensão das jornadas de trabalho, os seus horários podem ser alterados a cada dia, consoante as conveniências do serviço. Uma coisa é o "horário afixado", outra é o informal "horário de bolso". Este é o que pode ser alterado de véspera, convocando o trabalhador para o dia em que tinha marcada uma folga, ou prolongando o trabalho até às 10 ou 11 da noite. Legalmente, hoje em dia, isto não pode ser feito. Mas é. Segundo a proposta da APED, esta prática passaria a ser legal.
Para muitos trabalhadores, é impossível viver assim. Ou por terem filhos, ou por viverem longe e precisarem de 3 ou 4 horas por dia para os transportes, ou porque, à hora em que saem, já não há autocarros nem comboios, acabam por aceitar, "voluntariamente", um regime de part-time, com metade do salário. Há supermercados em que todos os operadores de caixa trabalham em part-time.
Raquel tem um filho de 9 anos, que entra às 8h00 na escola e sai às 18h. Se os horários fixos forem cumpridos, tudo corre bem. Raquel levanta-se às 6h30, deixa o filho na escola às 7h30 e vai para o trabalho, no Lidl, às 9h00. Ou então entra às 7h00, deixa o filho com a mãe às 6h00, para ela o levar à escola. Nestes dias, Raquel, como sai às 16, pode ir buscar o filho. Nos outros sai às 22, ou mais tarde, pelo que tem de pedir à mãe que vá buscar o filho. Mas a mãe trabalha, também com longos horários, tal como o marido de Raquel, que é motorista e nunca sabe a que horas chega a casa. Ou seja: se o horário de Raquel é alterado na véspera, a sua vida torna-se num caos.
Não era assim quando entrou para a empresa, há 13 anos. Solteira, sem filhos, cumpria qualquer tipo de horário. Era a trabalhadora perfeita. Podiam pedir-lhe que trabalhasse mais horas, que saísse tarde, que não fizesse folgas. Os gerentes gostavam daquela disponibilidade e ela habituou-os mal. Quando, depois do nascimento do filho, começou a pedir mais estabilidade, isso foi mal visto. Entrou em conflito com as chefias e foi transferida para outro supermercado. Mais tarde, ao puxar uma palete de frescos, fez uma hérnia na coluna. Ficou sete meses em casa e voltou, com indicações médicas de não levantar pesos. De então para cá, têm-se sucedido os processos disciplinares.
"Não lhes interessa terem pessoas mais velhas, com filhos, e muito menos com problemas de saúde, ainda que tenham sido causados pelo trabalho", diz Raquel. "Preferem mandar-nos embora, a nós que já ganhamos mais, para darem emprego a raparigas novas. Por isso começam a fazer pressão, até desistirmos."
"Trabalho, casa, trabalho"
Uma operadora de caixa em início de carreira ganha o salário mínimo, 450 euros. Mas todos os anos é promovida automaticamente, até chegar ao topo, oito anos depois. Ganha então 605 euros, como operadora especializada.
E a ambição pessoal fica por aí. A menos que consiga entrar para as chefias. O salário pode então subir aos 811 euros, no caso de um chefe de secção, ou, no de um gerente de loja, aos 1129 euros. Mas a estes cargos já não se chega por antiguidade. É preciso ser convidado, mediante opinião favorável dos gerentes, o que apenas se obtém com anos de uma atitude de docilidade e obediência, abdicando voluntariamente de direitos. Atitude que quem é casado e tem filhos dificilmente consegue manter.
"Eu queria casar, desde muito nova", diz Marília, operadora de caixa no Pingo Doce. "Casar e ter filhos. Estava farta de viver em casa dos meus pais. Queria ter liberdade, ser independente. Mas agora tenho dois filhos e mal os vejo. É só trabalho, casa, trabalho. Praticamente não tenho vida. Mas que hei-de fazer? É preciso ir aguentando."
Marília não é sindicalizada porque acha que isso lhe traria problemas. Segundo a delegada sindical Elisabete Santos, muitas das quotas do CESP são cobradas em dinheiro, e não descontadas no salário, para que os gerentes não saibam. "No Continente, há muito medo de pertencer ao sindicato, mas o pior é no Corte Inglés", de onde o sindicato recebe, diz, muitas queixas de abusos e até de assédio sexual.
À pergunta "Se a empresa exigir 50 horas semanais e flexibilidade permanente de horário seria capaz de fazer greve?", a resposta de Marília é: "..."
(*) Marisa, Ana, Filomena, Raquel e Marília são, por pedido das entrevistadas, nomes fictícios
http://jornal.publico.clix.pt/noticia/24-12-2009/em-postas-finas-sao-35-...
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ou o que distingue um libertario de um neo liberal
já agora gostava de saber a tua opinião sobre o "comando especifico" da propriedade privada (tendo em conta que em muitas "sociedades ancestrais" essa não existe enquanto "regra geral").
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