Várias Aldeias, uma só vontade

Continuámos a percorrer as várias aldeias ribeirinhas do Tua. Depois de Castanheiro, Brunheda e Codeçais, no fim-de-semana seguinte visitámos Pombal de Ansiães e Parambos. Mais tarde levámos o cinema às aldeias de Frechas, Vale da Sancha e Cachão, tendo na semana final apresentado o filme em Sanfins do Douro, Amieiro, S. Mamede de Ribatua e Vilarinho das Azenhas. Para uma apresentação geral do projecto e restantes notícias, ver Cinema Itinerante.

Com Exemplo de sessão no Amieiro, Alijóa excepção de S. Mamede de Ribatua, em todas as aldeias as populações se mostraram a favor da manutenção da linha. Há contudo uma ressalva: esta linha de comboio deverá continuar mas com obras, para a recuperar do abandono a que, também ela e à semelhança do resto da região, tem sido votada ao longo de décadas.

O abandono da região está bem patente no que pode ser usado como um exemplo paradigmático e bem ilustrativo: a ponte do Amieiro, que fazia a ligação da aldeia à estação que a servia, de seu nome Santa Luzia, por alusão à santa padroeira da terra, e permitia a quem tem terrenos na outra margem do rio Tua facilmente lá chegar. Usamos o verbo no passado pois esta ponte já não existe. Foi levada pela força das águas a 27 de Dezembro de 2002.
O município de Alijó, a que pertence a freguesia do Amieiro, prometeu a reconstrução da ponte para 2004, mas em Agosto de 2010 a situação Pilar caído da antiga ponte do Amieiro, visto do lado da estação de Sta Luziamantém-se, como pode ser atestado pelas fotos tiradas em Julho do corrente. Quem quiser ir granjear (trabalhar) os terrenos na outra margem do rio, ou espera pelo pico do verão e pelo caudal mais baixo do Rio Tua, para atravessar para o outro lado em 10 minutos, como fazia quando havia ponte, ou faz cerca de 40 quilómetros, indo por Foz Tua. Os mapas da google fazem ainda o trajecto pela ponte, o que permite ver a diferença de distâncias.

Aspecto do teleférico desactivado e da base da ponte, vistos do lado da estação de Sta LuziaA ponte, mais do que a passagem para a outra margem, era a passagem para o resto do mundo. Assim é como muita gente do Amieiro a vê, o que pudemos constatar quando passámos o filme nesta aldeia. Pessoas houve que nos diziam que "venha a barragem". Mas se lhes perguntássemos "e se a ponte lá estivesse?", a resposta pronta era "então que venha o comboio". Isto leva-nos a pensar que razões existirão para a ponte se manter por construir ao longo de tantos anos.


A desmaterialização humana do interior de Portugal

A erradicação de todo o interior de Portugal prossegue paulatinamente, num processo que começou há vários anos. Hoje em dia esse processo está em fase adiantada, o que permite que sejam encerradas, por exemplo, nove centenas de escolas primárias sem que exista forte contestação social com capacidade emancipatória (embora existam sem dúvida alguns exemplos de contestação, desde as autarquias até às associações de pais, como neste caso). Juntemos-lhe o encerramento de serviços de saúde, farmácias, postos da GNR, transportes públicos e, ainda de forma mais dissimulada, a destruição de postos de trabalho através da imposição de leis da república que criam peias às formas de vida e comércio tradicionais.

O despovoamento do interior do país torna de sobremaneira difícil o surgir de movimentos sociais de contestação, dado que existe muita pouca população e esta é na sua maior parte idosa. Assim, as elites capitalistas vão desenvolvendo os seus esquemas de rapina, usando o interior do país como fonte de recursos da estreita faixa litoral entre Setúbal e Valença. Os interesses das populações locais são subordinados aos interesses imediatos
dos habitantes das cidades, num esquema de cidadãos de segunda e de primeira. Mesmo este suposto interesse das populações litorais é dúbio, pois a qualidade de vida promovida pelo actual modelo desenvolvimentista é escassa. Assim, rouba-se ao interior para dar a quem habita no litoral, sendo que quem neste habita outra coisa não deseja, muitas das vezes, se não o regresso ao interior. Apenas não o faz pelo abandono já atrás referido.

A nós cabe-nos o denunciar da situação e endereçar um convite as todas as pessoas que nos lêem e habitam no litoral, para que visitem e falem com as populações do interior do país. No que ao vale do Rio Tua diz respeito, convidamos os/as nossos/as leitores/as a contactarem os movimentos
locais que ainda vão subsistindo, para que a visita que façam aos locais seja informada por aquilo que estes movimentos têm a partilhar. Sugerimos contactos com a COAGRET, Movimento Cívico (MCLT) e Amigos do Rio Tua (AAVRT), que poderão sugerir, explicar e contextualizar locais, situações, vivências.

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