Geografias autónomas

Na sequência do artigo publicado hoje na revista Timeout sobre a perda da sede do GAIA, gostaríamos ainda de enfatizar a importância que os centros sociais representam para nós:

Geografias autónomas são definidas pelos "espaços onde há um desejo de constituir uma forma de política, identidade e cidadania não-capitalista e colectiva, que se desenvolve a partir de uma combinação de resistência e criação e do questionamento e desafio das leis e normas sociais dominantes". (http://www.autonomousgeographies.org).

Os centros sociais constituem muitas vezes geografias autónomas. Centros sociais autónomos fogem da lógica especulativa do mercado, permitindo o confronto de ideias e a criação livre, política, social ou artística. São espaços onde os sonhos de cada pessoa podem ser trabalhados, articulados e experimentados, sem o peso da burocracia e as limitações criadas pelo sistema monetário aos estratos sociais menos privilegiados.

A gentrificação e especulação imobiliária, levando ao aumento das rendas, constitui uma das principais ameaças a projectos emancipatórios que constroem alternativas ao capitalismo, como o são os espaços sociais autónomos. Cada despejo ou encerramento de espaços autónomos como o Grémio Lisbonense, a Crew Hassan ou o Centro Social do GAIA na Mouraria, constitui um ataque a espaços livres que promovem teorias e práticas anti-racistas, anti-sexistas e anti-capitalistas, procurando eliminar todas as formas de hierarquia e dominação.

Por todo o mundo se multiplicam as lutas em defesa dos espaços autónomos. Muitas destas lutas atingem dimensões internacionais, num contexto global de luta contra a precariedade e contra a opressão dos movimentos sociais. Em Portugal, as redes de solidariedade são relativamente fracas, tornando estes espaços vulneráveis. Contudo, noutros países, a resistência pela manutenção de espaços autónomos chega a durar décadas (como é o caso da centros sociais ocupados Køpi em Berlim, ou Can Masdeu em Barcelona).

A cidade de Lisboa continua nas mãos da especulação imobiliária, com as elevadas rendas e a forte opressão, que impedem o desenvolvimento de espaços autónomos. A Câmara Municipal de Lisboa pouco ou nada tem feito para abrir espaço aos projectos sociais, autónomos ou subculturais. Muito do seu próprio património encontra-se devoluto ou quase devoluto. Porque não o disponibilizar para espaços autónomos, sem restrições ou imposições sobre o que neles deve ser feito?

Também publicado no Indymedia.

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