No dia 17 de Abril uma grande diversidade de associações, movimentos cívicos e redes de agricultores e agricultoras, horticultores e horticultoras, activistas e cidadãos e cidadãs celebraram o Dia Internacional da Resistência Rural com mais de 100 eventos em mais de 20 países. Uns grupos de pessoas trocaram sementes tradicionais, outros retomaram terras, ainda outros organizaram festas em hortas comunitárias e conduziram debates animados sobre o sistema actual de produção alimentar. Só na Europa mais de 40 eventos ecoaram o crescente protesto contra a privatização dos recursos naturais e apelaram à retoma da soberania alimentar e das sementes de cultivo.

Em Bruxelas, o coração do protesto, perto de 1.000 pessoas participaram no intercâmbio internacional de sementes, organizado pela Campanha Europeia pelas Sementes Livres. No dia 18 de Abril, um número semelhante desfilou em frente aos escritórios das grandes empresas de sementes como a Monsanto e a Bayer, entregando uma petição europeia para manter as sementes livres com perto de 60.000 assinaturas à Comissão de Direitos Humanos do Parlamento Europeu. Vejam aqui o video das Jornadas em Bruxelas "Resilient Seed".
Tanto em Lisboa como no Porto, perto de 80 pessoas responderam ao convite da Campanha portuguesa pelas Sementes Livres para passar o dia numa horta comunitária, com oficinas para adultos e crianças de bombinhas de sementes, horticultura e introdução à semente e tertúlias sobre a Soberania Alimentar e da Semente. Ainda em Lisboa, a associação portuguesa de preservação de sementes tradicionais, Colher para Semear, marcou presença no Jardim da Estrela com oficinas de recolha e preservação de sementes.
Em Montemor-o-Novo a Rede de Cidadania organizou uma sessão de esclarecimento sobre as leis das sementes e a revisão legislativa em curso, e constatou que as regras previstas constituem uma revelação desagradável para os produtores da região, que na sua maioria têm hábito de guardar as suas sementes. Numa só sessão recolheu-se um recorde de 63 assinaturas da petição europeia pelas sementes livres.
No Cartaxo a associação ambiental Eco-Cartaxo foi à rua esclarecer a população sobre as ameaças da Nova Lei de Sementes e recolher assinaturas. Inauguraram ainda um pequeno jardim-horta em frente à sua sede.
Em todos os sítios, horticultores e horticultoras mais ou menos experientes, trocaram as suas sementes e conhecimentos, ressuscitando uma prática milenar que hoje quase se perdeu.

A tertúlia Soberania Alimentar e da Semente na Horta do Monte em Lisboa contou entre outras pessoas com a presença do conhecido agricultor e dirigente da CNA, João Vieira, um defensor incansável da agricultura tradicional, a produtora Maria José Macedo, o horticultor Paulo Vitorino, representantes de cooperativas como o Carlos Gomes da Mó de Vida e de hortas comunitárias como a Horta do Monte e da Damaia, o investigador José Luís Garcia e representantes da Campanha pelas Sementes Livres.

As intervenções dos convidados e convidadas foram intercaladas com perguntas e debate e a tertúlia acabou por cobrir um pouco todas as causas da actual perda de soberania alimentar e da semente: a agricultura intensiva de grande escala, muito dependente de combustíveis e químicos sintéticos; a concentração dos mercados nas mãos de oligopólios, tanto no sector das sementes, como no dos agroquímicos e da produção e distribuição alimentar; o individualismo dos agricultores e cidadãos que agrava a perda da cultura local e do sentimento de pertença; a especialização do actual modelo económico que afasta cada vez mais os consumidores da produção e o enorme poder conjunto das empresas multinacionais, legitimadas por governos nacionais e organismos internacionais.
O Sr. João Vieira explicou como o sistema europeu de subsídios acaba por favorecer a agricultura de grande escala e os países mais poderosos da União Europeia, chegando-se ao cúmulo de haver milhares de empreendimentos agrícolas que estão a ser pagos para não produzir.. Outras perversidades relevadas pelos participantes: escolas com hortas que por lei não podem consumir os produtos por elas cultivados; o dono do Pingo Doce que duplica o seu lucro em tempo de crise, enquanto a receita dos seus produtores fornecedores diminui; o preço baixo na loja que de baixo pouco tem: o consumidor chega a pagar 30 vezes o montante que o produtor recebeu; o desperdício que existe no trajecto do campo ao prato: em média 30% da comida é deitada fora; a maçaroca tradicional e colorida que o Sr. João Vieira trouxe da sua região, e que apesar de saborosa e nutritiva, é considerada uma aberração pelas autoridades e nunca aparecerá num supermercado (O Sr. João Vieira resiste e continua a cultivar esta variedade antiga).
Os participantes não se ficaram apenas pela identificação dos problemas, também esforçaram-se para indicar soluções. Foi consensual que como cidadãos e cidadãs temos que combater a destruição da cultura, economia e gastronomia locais, unindo-nos de forma inter-geracional e multi-profissional em iniciativas de solidariedade e cooperação que nos voltam a ligar à terra e aos agricultores e agricultoras. Não importa se o nosso campo de actuação é a cidade ou a aldeia, temos todos que nos preparar para sermos novamente produtores, pois o consumismo tem os seus dias contados. Temos que reaprender o que é viver da terra. Para algumas pessoas pode significar abraçar uma vida neo-rural, outras podem juntar-se em cooperativas de consumo e produção, ainda outras podem tentar reapropriar o solo outrora fértil das cidades antigas e criar hortas urbanas. A comunicação e a sensibilização para a privatização da nossa cadeia alimentar é importante, mas para travarmos verdadeiramente esta tendência, temos que continuar a semear e a preservar as sementes e conhecimentos tradicionais e envolver todas as gerações e classes profissionais nesta luta.
No dia 18 de Abril, enquanto em Bruxelas a manifestação seguia diante dos escritórios das multinacionais das sementes e agroquímicos, em Lisboa um grupo mais pequeno entregou uma cópia da petição europeia pelas sementes livres à representação portuguesa da Comissão Europeia. Infelizmente, os representantes da CE não se dignaram em receber a comitiva, mas aceitaram a petição..
A comitiva das Sementes Livres seguiu depois para o Largo de Camões para apresentar a peça de teatro "Se Me Mentes" preparado pelo grupo de teatro Díspar em colaboração com o GAIA e o grupo musical Ritmos da Resistência. A peça relata de forma visual, ao som de tambores, os perigos da privatização das formas de vida de que todos dependemos. No fim da peça, os espectadores são convidados para "completar" o retrato, reconstruindo o que segundo eles e elas seria um mundo ideal. No Largo de Camões mais de 60 pessoas assistiram ao espectáculo e um número significativo acabou por aceitar o convite para concluir a história.
A última Jornada de Acção pelas Sementes Livres foi concluída com mais uma sessão do filme "As Nossas Sementes" (2008, Our Seeds Yong Blumi, Michel e Jude Fanton) trazido para Portugal pela associação MPI e legendado por voluntários da Quercus.
Até breve :-)
Saudações semeadas,

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ucuz Tatil
Numa só sessão recolheu-se um recorde de 63 assinaturas da petição europeia pelas sementes livres.
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